sexta-feira, 10 de abril de 2015

Crescer dói

Andando na pracinha em frente à minha casa vi duas garotinhas. Uma tinha cabelos curtos e castanhos, sorria belamente e vestia vermelho. A outra tinha os mesmos cabelos curtos e castanhos, e um sorriso que fazia par com o da outra, pois belo também era. O privilégio de ser espectadora das duas causou em mim indelével encantamento. O sorriso que era fácil no rosto delas o era no meu.

Quando decidi voltar para casa, olhei uma última vez para elas. Naquele exato momento, saíram dos meus fones os primeiros acordes de uma música. E a emoção desceu por meu rosto, porque eu gostaria de ter podido colocar as duas em meu colo apenas para dizer:

“Crescer dói, meninas. E nós que já crescemos um pouco sabemos bem disso. Dói um pouquinho mais a cada vez; os pesos vão aumentando (esse peso que os mais velhos chamam ‘responsabilidade’ é um deles). Vai ficando mais difícil, mas se pegamos na mão de alguém, tudo se torna mais tranquilo. Mais fácil, até. Portanto, não soltem uma da outra. As suas mãos, ora tão pequenas, crescerão e ficarão fortes e servirão para dizer ‘Eu estou aqui, e você sabe que é mais fácil quando estamos juntas.’ sem que qualquer palavra seja dita.

Servirão, também, para que os cadarços e nós desatados que surgirão pelo caminho sejam amarrados. Por favor, não não se esqueçam de fazer isso. Esses tais nós e cadarços, quando mal amarrados, nos fazem tropeçar. E tropeços podem ser bem ruins.

Todavia, se vocês, mesmo com todo cuidado, deixarem algo solto e disso vier um tropeço, não se desesperem. Nesse momento vocês terão de levantar aquela que tiver caído. Sejam fortes nesse momento; mantenham as mãos firmes, estendam-nas e puxem a outra. E jamais, por mais difícil e dolorido que seja o levantar, simplesmente parem. Vocês precisam continuar andando. 

Quando menor, eu tinha dores muito fortes nas pernas. Os médicos disseram que era ‘dor do crescimento’ e que passaria à medida que eu fosse crescendo. Eles estavam certos, realmente passou. Mas quando digo que crescer dói, nem sempre é dor física, igual a essa que eu tinha. Geralmente são dores na nossa alma. E isso nos faz precisar de mais força ainda.

Quem sabe, se vocês olharem pros seus heróis e heroínas, verão as mesmas dores neles. Todo herói precisa crescer, meninas. E crescer dói. Só que, geralmente, se consegue conviver com a dor. Mãos dadas, cadarços amarrados e força pra levantar e seguir adiante é uma boa receita. Espero que dê certo pra vocês!”

“Crescer dói, mas de mãos dadas é mais fácil
Crescer dói, vamos amarre o seu cadarço
Crescer dói, você precisa continuar andando
Crescer dói, por isso estou sempre me levantando

Crescer dói
Crescer dói
Crescer dói
Mas essa foi a história de todos os heróis”

- Selvagens à procura de lei

Em homenagem aos que me fazem seguir adiante (a um em especial). Com amor.

Lucia R. Britto,
Abril, 2015


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Largada

Foto: Lucia Britto

Quem eram seus adversários? Bem, ali só havia ele. E é bom que seja assim. Ganhar de si mesmo é a maior das vitórias! Sorte, criança!

- Mãe, não passa dessa linha, tá? Aqui é a largada!

A linha no chão, que um dia talvez foi branca, poderia ser um monte de coisas. Inclusive só uma linha branca (ou não) desenhada no chão. Para aquele pedaço de gente, no entanto, era o ponto de partida de alguma corrida.

Lucia Britto,
Abril, 2015